A modéstia é tão falsa quanto o amor dos deuses pelos homens. Previsivelmente falsa pois anda de mãos dadas com o conforto e, não obstante, flerta com a garantia. A modéstia é simples, plana, seca, ríspida. Tão ríspida quanto a mentira e tão disfarçada quanto o ócio. "Modestos", os mal-amados disfarçam a insegura vontade de agradar ou de conquistar com a máscara da singeleza.
Cultura, valor, moeda. Serve de lastro para a convivência e por isso conquistou os cristãos, humildes filósofos da previsível arte de confortar. Serve de preço para o acordo e para a instituição da sociedade, da conformidade, da aceitação, do espasmo. Dolorida, perfura a historiografia e tem seu gérmen nos mitos, contos brilhantes que deram o crédito do brilhantismo aos deuses ao invés do homem.
Já diria Schopenhauer que "nas pessoas de capacidade limitada, a modéstia não passa de mera honestidade, mas em quem possui grande talento, é hipocrisia".
O que não se percebe é que, posto que a modéstia é um valor positivo e raro para a sociedade ocidental ultramoderna, ser modesto se torna um ato de audácia e de pretensão, anulando a própria ideia de modéstia que o homem esculpiu. Ser modesto é falsidade, acidez de espírito e brevidade de corpo.
Imaginemos um mundo sem modéstias: grandes bibliotecas imensas e profundas de autobiografias de todas as almas que aqui já pisaram, todas sem o engano de achar que contar a própria história é pecado e causa doença moral. Um mundo repleto de orgulho e que, sem essa falsa conformidade, seria justo com as próprias pretensões: atos extremos, efêmeros e audaciosos nos melhores sentidos das palavras. Modéstias ausentes e com elas acanhados os preconceitos, as invejas, os rancores. Amarradas e amordaçadas as falsidades todas: as de amor, ódio e engano. Não seriam modestos os apaixonados, arriscariam-se e desistiriam um passo depois, sem amargura na poesia. Não sofreriam os chefes da modéstia do poder, tumor que faz o tirano praticar a tirania. Sem modéstia não há necessidade de afirmar uma condição ou uma vontade, tem-se o sentimento e ele se faz transbordar.
Seriam justos os poderosos, agradecidos pela liberdade plena do valor de seus atos; ainda mais justos os mistérios da paixão, sem modéstias para tropeçarem no caminho entre o coração de quem ama e o de quem é amado.
Se me perguntarem o que quero para o mundo e para o futuro, responderei: menos modéstia, por favor.
Nenhum comentário:
Postar um comentário