domingo, 2 de junho de 2013

Amaço amassado

Ouvir alguém dizer que te quer feliz é como ganhar uma felicidade que se alimenta, que por ela e só pelos próprios motivos se recria na forma de paixão, de vontade, de curiosidade e de sinceridade. É como um amontoado de argamassa que quanto mais se amassa mais se quer amassar - em todos os sentidos físicos e figurados do amasso e do amaço -. É ser levado por um empurrão que puxa olfato, visão, audição, toque e paladar para o mesmo beco de (des)ilusão. É a explicação mais pura e mais sincera para a maior ironia de que um poeta pode tratar: amar

terça-feira, 28 de maio de 2013

Ode ao vento

Que o mar me abençoe como errante,
eu, eterno navegante,
perambulante
mente a mente.

Não tão errantemente,
povavelmente traria-me como mercante
ou como algum outro certo amante.

Mas, veja: somente doravante,
não mais agora ou então
anteriormente.

Apenas em um içar de velas
sem vírgula, sem rima...
ou rimando, finalmente.

Desconcerto da sede


Sede
dessa boca que reclama,
difama.
Dessa prosa toda que te dá
fama
mas que me deixa prosear.
Conversa de alma pr'alma,
sem corte nem
interrup-
ção.
Acaba lenta e desinteressada,
cansada,
desavisada,
e que arrepende o apaixonar,
traz falsa rima e conforto pro
coração.
Sem ação.
Só tentação.
Quase com-
pleta
de repleta excitação.
Mas, falsa que é
essa tal de animação,
engana, trai e desanima a sede.
Sede de ceder e ser de
aproximação.
Sede de perder a razão.

domingo, 17 de março de 2013

erudito

do prelúdio fez-se a vontade
de rimar a cifra com o prazer;
fi-la por mais pura bondade
no medo de ficar e enlouquecer.

olhei para trás: enganou, enganaram;
fizeram do meu allegro mentira e
nem mesmo pestanejaram
em fazer do meu orgulho melodia.

tocaram-na, dançaram-na; escárnio!
terminaram o soneto e o moderatto,
logo me trouxeram um amar andante,
errante!
insultei-me e acabei-me pelo fardo.

terça-feira, 5 de março de 2013

Ensaios da Respiração I

Eu respiro e meus pulmões se arrastam como se carregassem correntes de chumbo, ouço seu eco misturado com seu grito ao final de cada suspiro. Parece-me que cantam uma lamúria meio desgraçada de amor ou que tentam reproduzir algum soneto de desejo; expandem-se tão devagar que mais parecem o coração de um elefante adormecido. Quando recebem as rápidas e modestas visitas do ar sujo que me toca quase sinto suas paredes estremecerem de tamanha excitação. Mas explicarei com (ainda) mais detalhes.
Primeiro vem a falta. Toma conta do peito e preenche tudo de vazio, dá vontade de pôr meio sopro de ar dentro do corpo. Por segundos não há reação de nada dentro mim, os pulmões apenas aguardam, quietos, a entrada de oxigênio. Não se movem, não conversam; apenas silenciam junto com a falta de respiração. De repente me vem aquele contorcionismo de músculos amassando-se com veias e tecidos, todos hermeticamente unidos pela vontade de renovar seu sangue. 
Por força do corpo e da naturalidade o ar, acanhado, põe os pés pra dentro de mim. Caminha devagar, passos frouxos; debruça-se às amígdalas e, perplexo com a escuridão da traqueia, tropeça. Cai, lento, até esbarrar no tórax. Embrulha-se em uma cambalhota confusa e se parte em pequenas gotas de macio alimento para meus alvéolos adormecidos. Cai sob o muco como farfalha a pimenta na carne, dando certo conforto passageiro.

Consome-se.

O ar se esvai, traiçoeiro, como quem dança e foge ao mesmo tempo; parece que imita um frevo aguçado e ensaiado dentro dos pulmões e, num passe de mágica, desaparece. Como faísca ou como paixão simplesmente desintegra-se e deixa um vazio do mesmo tamanho em seu lugar. É como se pequenas pétalas de ar dissolvessem-se nas paredes dos brônquios e das cartilagens e, num espaço curto de tempo, vira ar vazio, sem utilidade. 
O problema, ou seja, o incomum, é que essa massa vazia parece se alojar dentro de mim a cada suspiro, bebendo dos meus esforços e da minha respiração um espaço que deveria me pertencer. Acumula-se nos fundos dos pulmões e parece que vira fungo, toma conta do que pulsava. 
Cuspo, então, um sopro de vento ríspido e ingrato como uma gaivota alimentada que foge da praia e mergulha na vida. Tenho a impressão de que o ar entra por mim, passeia pela minha carne, usa o que tem de usar e, periodicamente, solta-se daqui. Parece-me que entra um sopro tão motivado a me desvendar e encher de vida quanto a sair de mim e me deixar sem nada.
E logo vem a falta, que toma conta do peito e preenche tudo de ainda mais vazio. E vem a vontade e pôr alguma coisa nos pulmões novamente.
Ando arrastando-me pela respiração, que mais parece uma eterna dama do abandono.

história de amor

viu,
viram-se.
pestanejou.
perdeu.


foi.
voltou.

voltou rápido.
viram-se.

virou-se.
viraram-se.

um voltou,
outro
foi.

f
o
i
-
s
e

domingo, 3 de março de 2013

fait d'aimer


quand le fait d'aimer

devient plus important

que l'amour entier

les motifs apparents 

ne peuvent pas un amour porter.