quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Concreto

É nesse mundo ingrato que se constroem as pessoas, tijolo por tijolo de decepção: viram enormes monumentos e largas avenidas cheios de passado e cheios de dívidas, mas sem acabar passando nada pra ninguém. Formam-se grandiosos prédios móveis, centros de decisão e responsabilidade; formam-se enormes arranha-céus humanos, tão audaciosos e incertos quanto os de concreto; e por falar em concreto, é necessário dizer que este serve de sangue, corre solto pela veia. Formam-se corações estáticos e mal humorados, prontos para bombear cimento e metal pelas veias todas desse imenso sistema circulatório de perdas e de tristezas. E circulam fluidamente, as tristezas: caminham tranquilas, errantes e vis, todas as manhãs e todas as noites, pelo teatro de sentimentos que um dia ousaram chamar de amor.
Formam-se, neste mundo de azar, enormes passarelas e ruas alargadas, todas vazias; servem de passagem para o desgosto do âmago, para o arrependimento. Passarelas e ruas vivas, respirando e mantendo seus sonhos como se fossem realidades. E confundem-se entre arquitetura e vontade, entre segurança e garantia.
E então vem a chuva, o vento, o drama, a ausência, a saudade. E vêm todos juntos, todos os dias: lapidam e destroem, aos poucos, o oceano de concreto que viramos. E, logo, deixam-nos como estranhas e insistentes formas de concreto quebrado e mofado. E então vamos em busca de mais gesso e de mais tijolo, reconstruindo novos e novos erros ainda mais emocionantes e falsos que os anteriores.
E então chegam os amores.
E ruímos completamente, ao som de Chopin e de Stravinsky. E ruímos aos poucos, lenta e dolorosamente, derramando lágrimas de perda e de argamassa. E continuamos desmoronando até que apareça alguém, amado ou não, para catar nossos destroços espalhados pelo chão e juntá-los com força e ousadia. E fazem novos prédios e avenidas de desilusão.
E assim, desiludindo-se, o concreto aos poucos se cansa, desiste; sai de nós como sai a aurora das montanhas, tropeça na própria solidez e entra em outro alguém. E preenche outra lacuna com rocha e com esperança.
E restamos nós, apaixonados convictos de nossos exageros, sem concreto nem nada mais que possa nos preencher. Ficamos vazios até que a solidez de outra pessoa nos encante e nos abrace. E então nos tornamos grandes monumentos do azar novamente.
Ruindo e reerguendo, desmantelando e sofrendo; assim acaba a vida, uma hora.

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